Pelotas está preparada para ter a sua própria orquestra sinfônica – crônica

No Largo do Mercado, um gurizinho, quase engolido pela tuba, inflando as bochechas, tentava arrancar os primeiros sopros do instrumento. Isso na concentração do cortejo de abertura do 14º Festival Internacional SESC de Música, onde a junção de profissionais, alunos e amadores tocando pelas ruas dá início a um período de riqueza cultural inigualável.

Presente no cotidiano, a música impacta as pessoas sem pedir licença. Pode ser a mulher com tailleur impecável, apressada para um compromisso de trabalho; aquele aposentado no banco do calçadão que fica vendo Only Fans; ou o adolescente que arrasta o All Star, imerso na curadoria do seu algoritmo. Não há como escapar: a paisagem sonora está nas calçadas, restaurantes, cafés, igrejas e, inclusive, em supermercados.

Mas até agora não soube de ninguém querendo escapar das performances musicais. Pelo contrário, nesses dias de festival, há um aumento significativo de arrepios na espinha, deslumbramentos, admiração, fascínio, surpresa, euforia, alegria e, uma certa doce melancolia, ao ficar exposto a tanta beleza. Imersa na arte musical, a população vive uma educação sentimental.

São quatorze edições do festival em que a cidade experimenta essa explosão sensorial coletiva. A música de concerto já foi incorporada por pessoas em todas as camadas e matizes sociais. Pelotas está preparada para ter a sua própria orquestra sinfônica. E, no futuro, aquele gurizinho dos primeiros sopros talvez possa dizer, assim como disse o Erico Verissimo: “Eu venho de uma cidade que tem uma orquestra sinfônica’’.

246lucian@bol.com.br

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