Brrrrrrrrrrrrrrr! Brrrrrrrrrrrrrrr! O termômetro estava abaixo dos dez graus quando os corredores do Theatro Sete de Abril voltaram a receber o mesmo vai e vem de antes do fechamento, com famílias carregando filhos pequenos, namorados se beijando em um cantinho menos iluminado e um ou outro espertinho procurando uma janela para fumar às escondidas. No dia do aniversário de Pelotas, foi reaberto o teatro que, há quase duzentos anos, aproxima a cidade da cultura.
Foi ali que passei parte da adolescência. Eu tinha por volta de quinze anos quando virei um habitué. No Sete ao Entardecer, curti muita música da galera local. Sabe aqueles amigos que tinham banda e ensaiavam na garagem de casa? No palco do teatro, viravam rockstars. Eu gostava de chegar cedo e sentar num dos camarotes, era um espaço mais reservado, até porque às vezes usávamos o truque de unir dois canudinhos para aumentar o seu tamanho e inseri-lo na garrafa de vinho escondida na mochila.
O Sete também ia além da música. Em dois mil e nove, no projeto Sete Imagens, a projeção de curtas-metragens feitos aqui no estado foi marcante. No dia dezessete de setembro, rolou o lançamento de “Futebol Sociedade Anônima”, dirigido por Cíntia Langie e Rafael Andreazza, que, das produções pelotenses, é a que mais gosto até hoje. Aí, duas semanas depois, passou “Do Mesmo Lado do Muro”, do diretor Bruno Carvalho, de Porto Alegre. Estudando para o Enem naquele ano, eu quase cogitei cursar Cinema em vez de Jornalismo.
Essas memórias voltavam com clareza na noite fria da reabertura. Apesar de meus aplausos não surtirem efeito no bater das luvas, eu aplaudia com empolgação, consciente de estar vivendo um momento histórico. No palco, Vitor Ramil cantou a música que, para mim, é sua obra-prima, a ponto da letra seguir a semana toda na minha cabeça: “Porque vou na tua casa / E lemos coisas bonitas juntos / No silêncio eu pego em tua mão / Tu do meu lado e eu no teu quarto quieto / Teu ser se confunde no meu’’.

Jornalista.
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