Espetáculo teatral “Quarnça” denuncia a violência contra a mulher

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Novo espetáculo d’A Próxima Companhia, em parceria com a Unaluna – Pesquisa e Criação, está em cartaz até 21 de maio no Espaço Cultural A Próxima Companhia, na zona oeste de São Paulo.

Em cartaz até o dia 21 de maio no Espaço Cultural A Próxima Companhia, na zona oeste de São Paulo, o espetáculo “Quarança”, nova produção d’A Próxima Companhia em parceria com a Unaluna – Pesquisa e Criação, propõe uma reflexão sobre a violência contra a mulher.

Foto: Adriana Nogueira
Foto: Adriana Nogueira

A palavra “quarança” vem do verbo “quarar a roupa”, do regionalismo brasileiro, que significa clarear a roupa pela exposição à luz do sol. Da mesma forma, o espetáculo “Quarança” expõe à luz do teatro questões referentes à opressão feminina em nossa sociedade, tais como o estupro, o feminicídio, a pedofilia e o controle do macho sobre a mulher, seja ela criança, adulta ou idosa. Tais questões são estendidas à luz de “Quarança”.

“Quarança” é uma fábula dramatúrgica que conta a história de Alereda, uma cidade fictícia onde o sol é insistente e a terra, esturricada. Alereda é feita de caminhos estreitos, uma trama de vida e morte. Ocupada por um exército de jagunços, liderados pelo temido Sô Déo, o lugarejo tem suas mulheres violentadas, mortas e, uma a uma, quaradas ao sol, veladas sem lua, extintas, carbonizando o chão.

Neste contexto surge a guerreira Rosa Ararim, que se posiciona contra este estado falocêntrico de opressão. Luciana Lyra assina dramaturgia, encenação e direção e a peça traz à cena as atrizes Juliana Oliveira e Paula Praia, d’A Próxima Companhia e a atriz convidada Lívia Lisbôa.

O processo de pesquisa da companhia iniciou-se em 2014, mesclando vivências pessoais das atrizes-criadoras e da diretora com referências externas, como filmes, livros, artigos, espetáculos, palestras, documentários etc. Uma das ferramentas que a companhia utilizou para aproximar os mitos pesquisados da realidade vivida foi o levantamento de depoimentos de mulheres comuns. Relatos de familiares e amigas, histórias de notícias de jornal, fábulas urbanas etc.

Foto: Adriana Nogueira
Foto: Adriana Nogueira

“A partir de nossas experiências pessoais, queremos ampliar o debate sobre a opressão contra as mulheres. E não pretendemos trazer uma versão da mulher somente como vítima, e sim, como ser histórico – sujeito e objeto destas situações -, trazendo à tona histórias de mulheres comuns, afinal, o universo pessoal também é político”, conta a atriz-criadora d’A Próxima Companhia Juliana Oliveira.

Entre os filmes assistidos, um em especial chamou a atenção da companhia: o documentário sobre a vida de Aracy de Carvalho Guimarães Rosa, conhecida como o “Anjo de Hamburgo”, uma figura praticamente desconhecida. Uma mulher como outra qualquer (divorciada do primeiro marido, com um filho, que trabalhou para sobreviver, que escrevia diários e mandava cartas de amor), mas que teve feitos heroicos. Poliglota brasileira que prestou serviços ao Itamaraty na Alemanha nazista, Aracy teve um importante papel ao livrar da morte aproximadamente uma centena de judeus, concedendo-lhes vistos para o Brasil.

Segunda esposa do escritor João Guimarães Rosa, há uma hipótese de que a personagem ícone de Grande Sertão: Veredas (obra que o autor dedica à Aracy), a guerreira Diadorim, tenha sido inspirada em Aracy, fato que também serviu de inspiração ao coletivo feminino criador de “Quarança”.

“Em pleno século XXI, basta abrir o jornal para vermos ainda hoje meninas de 10 anos (ou menos) sendo obrigadas a casar por acertos de suas famílias, desigualdade gritante de salários, estupros e culpabilização das vítimas, mortes por abortos clandestinos, a obrigatoriedade de abrir mão de sonhos para ser uma ‘esposa perfeita’ ou mãe muito jovem, violência física, moral e verbal. A sociedade em que vivemos ainda acha bastante indigesto ser comandada por uma mulher, seja no plano familiar, empresarial ou político”, conta a atriz Paula Praia.

“Estes fatos que nos assolam todos os dias se tornaram um caldeirão muito rico de material para nos posicionarmos política e artisticamente. Estas histórias perpassam nossas vidas também, embora não tenhamos sido as protagonistas de todas elas. Quando percebemos isso, ficou impossível não nos posicionarmos. Nós três, atrizes d’A Próxima Companhia, escolhemos o teatro para este posicionamento. Ou melhor, temos a obrigação de fazê-lo”, conclui.

Além das apresentações no Espaço Cultural A Próxima Companhia até 21 de maio, “Quarança” também vai circular por diversos espaços culturais independentes da cidade de São Paulo. O projeto, aprovado pelo Prêmio Zé Renato 2016 – 4ª edição, é uma parceria entre A Próxima Companhia e a Unaluna – Pesquisa e Criação.

Sobre A Próxima Companhia
Núcleo artístico da Cooperativa Paulista de Teatro, A Próxima Companhia foi constituída a partir da união de artistas egressos do Clã – Estúdio das Artes Cômicas que, após cinco anos de trabalho conjunto (2009 – 2013), em 2014 optaram por ter seu núcleo artístico constituído. O grupo tem sua criação cênica e método de pesquisa com foco nas questões da memória, no trabalho do intérprete e sua relação com o público. Propostas de treinamento são trazidas pelos próprios integrantes e artistas colaboradores convidados, privilegiando técnicas e dinâmicas de improviso, valorizando o jogo entre os atores e as tradições do teatro popular e a linguagem das máscaras e do circo. A Próxima Companhia vale-se ainda de técnicas extra teatrais como recurso para potencializar o discurso cênico (meditação ativa, danças circulares, ateliê de canto etc.). Também são parte da preocupação do grupo o trabalho de investigação teatral e a troca de conhecimentos com o público. Para tanto, também são realizadas atividades lúdico-teatrais (intervenções urbanas, performances, contações de história) e de formação, ministradas a diferentes públicos pelos integrantes da companhia que também possuem formação como arte-educadores (cursos de iniciação à técnica do palhaço, improvisação para a cena, iniciação teatral, formação de educadores, confecção e uso das máscaras teatrais etc.). Como forma de potencializar suas ações artístico-culturais o grupo mantém um espaço cultural no bairro Campos Elíseos em São Paulo/SP.

Sobre a UNALUNA
Associada à Cooperativa paulista de Teatro, desde 2007, a UNALUNA configura-se enquanto de investigação, que congrega coletivos, grupos artísticos, e mesmo, artistas autônomos que intentam trabalhar a partir dos procedimentos da Mitodologia em Arte e da Artetenografia, conceitos desenvolvidos pela atriz, performer, encenadora, dramaturga e professora Luciana Lyra, em suas pesquisas de mestrado, doutorado em Artes Cênicas (UNICAMP/SP) e pós doutorados em Antropologia (USP) e Artes Cênicas (UFRN). Na sua trajetória, UNALUNA vem desenvolvendo projetos na área de pesquisa, criação, produção e formação artísticas, assim como projetos pedagógicos em arte, significando-se como um espaço de germinação, cultivo e florescimento do templo jardim que é a arte e seus artífices. Das pesquisas artetnográficas e mitodológicas, foram criados os espetáculos Joana In Cárcere (UNICAMP-2005), Calunga (Funcultura-PE-2006), Conto (Prêmio de Fomento às Artes Cênicas da Prefeitura da Cidade do Recife-2007), Guerreiras (Funcultura-PE-2008/Prêmio Funarte Myriam Muniz de Teatro-2009/Prêmio Funarte Artes Cênicas na Rua-2009), Homens e Caranguejos (Prêmio de montagem de espetáculo inédito no Estado de São Paulo, ProAC -SEC-SP-2011/ Prêmio Funarte Myriam Muniz de Teatro- circulação 2012), Salema- Sussurros dos Afogados (ELT-2012), Obscena, Fogo de Monturo e Cara da Mãe (2015), Quarança (2017). O estúdio também produziu os livros Guerreiras; texto teatral e trilha sonora original, com subsídio do Funcultura Pernambuco, em 2010, e De como meninas guerreiras contaram heroínas, contemplado com a Bolsa de Criação Literária da Funarte, o Prêmio de Publicação de livros ProAC no Estado de São Paulo e o Funcultura-PE, entre 2009 e 2013. Em 2011, Luciana Lyra, fundadora de UNALUNA , recebeu o Prêmio de Texto Inédito de Dramaturgia também pelo ProAC, com o texto LUNIK (2012) e com o texto JOSEPHINA (2017)

Espetáculo “Quarança”
d’A Próxima Companhia
Temporada até 21 de maio de 2017, sextas e sábados, às 21h; domingos, às 19h.
Classificação etária: 14 anos
Duração: 90 minutos
Ingressos: R$ 20,00 (inteira) R$ 10,00 (meia)
Espaço Cultural A Próxima Companhia: Rua Barão de Campinas, 529, Campos Elíseos, Próximo à Estação Santa Cecília do Metrô.
Capacidade do espaço: 60 lugares
Tel.: (11) 3331-0653

FICHA TÉCNICA
Dramaturgia, Encenação e Direção: Luciana Lyra
Assistente de Direção: Stella Garcia
Atrizes-Criadoras: Juliana Oliveira, Lívia Lisbôa e Paula Praia
Vozes em off: Caio Marinho, Gabriel Küster, Kerson Formis, Márcio Marconato (Jagunçaria); Walter Breda (Sô Déo)
Direção Musical: Alessandra Leão
Produção Musical: Missionário José
Cenário e figurinos: Marco Lima
Iluminação: Ari Nagô
Preparação corporal: Gabriel Küster
Preparação para manipulação de bonecos: Júnior Siqueira
Costureira: Zezé de Castro
Cenotécnico: Zé Valdir Albuquerque
Fotos e vídeo: Adriana Nogueira
Design gráfico: Rafael Victor
Assessoria de Imprensa: Marcelo Dalla Pria – Rhizome Comunicações
Produção: A Próxima Companhia e Radar Cultural Gestão e Projetos
Direção de Produção: Caio Franzolin e Solange Borelli
Núcleo Artístico A Próxima Companhia: Caio Franzolin, Caio Marinho, Gabriel Küster, Juliana Oliveira e Paula Praia.
Atriz colaboradora no processo de criação: Julia Pires
Realização: A Próxima Companhia e Unaluna – Pesquisa e Criação em Arte

Mais informações:
www.aproximacompanhia.com.br
www.facebook.com/aproximacompanhia
Contato:
aproximacia.producao@radarcultural.com.br
quaranca.producao@radarcultural.com.br

Fonte: Marcelo Pria

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