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Publicado em 2 março 2010, por Deco Rodrigues
O teatro 7 de Abril, de Pelotas, é um clássico que pode e merece ser visitado com carinho e atenção. Grandes nomes passaram por ali. Portanto, não se furte de subir escadas e explorar corredores. Na casa da ilusão, tudo é permitido.
Silêncio nos bastidores, a ilusão vai zarpar!
As cordas que sustentam as coxías, os cenários - agora ausentes - os cortinados, as cordas que fazem o teatro parecer um navio ancorado prestes à zarpar, as cordas desenham linhas na parede, linhas intactas, sombras cinzentas onde eu penso ver o movimento de um aceno. Mas não, é só uma mariposa perdida passando, quase poderia ouví-la, não fosse o silêncio ensurdecedor. Nem todo o passo faz ranger as tábuas, mas as escadas estremecem quando as venço, e a cordoaria balança quando a toco, quase como se pudesse fazê-las falar. No ar, um cheiro seco e mofado. O Tempo, o que devora a glória impiedosamente, passou por aqui.
Os camarins, venci a pouco. Corredores simples, iluminados, a parte real da ilusão servindo de caminho para os camarins clássicos, sem janelas, mas com o espelho de lâmpadas incandecentes. Olhar-se no espelho sob essas luzes é perceber o quanto se pode ser e não ser ao mesmo tempo, o gato de Schrödinger e o príncipe da Dinamarca. Escadas estreitas levam ao segundo andar dos camarins, tão parecido ao primeiro andar quanto dois gêmeos, à excessão de que o de cima tem o corredor mais estreito e o de baixo tem mais luz, tem um pichiche de espelhos de cristal, certamente assombrado pelo olhar de uma estrela decadente, no dia em que a glória a tocou pela última vez.
Como todo teatro clássico, o 7 de Abril conecta os bastidores com os corredores por trás dos camarotes, conecção sempre escura, noturna no mais doce dos dias. Ali se ouve a palavra da cena, o sussurro dos que passam, passaram, ainda hão de passar. Ali cheira como em nenhum outro lugar, à inveja e admiração. É o túnel que emerge da ilusão da glória para o saguão de entrada, cujas portas por um instante a gente não reconhece, de tão iluminadas, de tão claras.Na praça, a glória!
Fonte: www.porteiradafantasia.blogspot.com
Blog da escritora e professora de dança, Simone Saueressig
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